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CINECLUBE JOÃO BÊNNIO

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Por betoleao em Qua 04 de Jan, 2006 16:47 BRT

A HISTÓRIA DO CINECLUBE JOÃO BÊNNIO

'image' />A idéia embrionária para a criação do Cineclube João Bênnio surgiu logo após a morte do cineasta e teatrólogo João Bênnio, ocorrida no dia 18 de junho de 1984. Como toda manifestação espontânea, inicialmente o grupo fundador da nova entidade era bastante pequeno e formado por diretores de cinema, fotógrafos e críticos cinematográficos, entre os quais Eudaldo Guimarães, Divino José, Paulo César Abreu, Ellifaz Rodrigues e Beto Leão. Depois de várias reuniões e encaminhamentos, a idéia foi tomando forma e novos adeptos foram se filiando ao novo cineclube.

Uma das primeiras atividades desenvolvidas pelo Cineclube João Bênnio (CJB) foi a I Mostra do Cinema Francês na Caixa Econômica Federal, realizada de 1° a 5 de julho de 1984. Foram exibidos filmes contemporâneos como Deserto dos Tártaros, de Valério Zurlini; Aída, de Pierre Jouyrdain; O Mau Filho, de Claude Sautet; Minha Doce Delegada, de Philippe de Brocca, e O Relojoeiro de São Paulo, de Bertrand Tavernier. Os filmes foram gentilmente cedidos pela Embaixada da França no Brasil.

A partir daí, foram realizadas sessões itinerantes pelos bairros de Goiânia.

'image' />Após essa promoção, o CJB realizou a I Semana João Bênnio, de 18 a 23 de junho de 1985, no Teatro Liberdade. A homenagem póstuma teve por objetivo a preservação da memória deste pioneiro e grande incentivador da arte cinematográfica em Goiás. Foram exibidos todos os filmes produzidos e dirigidos por Bênnio, documentários em vídeo sobre sua vida e obra, além de exposição de artes plásticas, fotografias e cartazes referentes ao artista e seus filmes. Na ocasião foi lançada a revista João Bênnio – Perfil, produzida pelo Departamento de Divulgação e Promoções do Cineclube, que traça a sua trajetória pessoal e artística.

O Cineclube João Bênnio lançou em 6 de setembro de 1985, no Cine Hawaí da cidade de Itapuranga (GO), o projeto Cinema Itinerante. O objetivo foi levar às mais distantes localidades do Estado a cultura cinematográfica de Goiás, sem perder o contato com os melhores filmes nacionais e internacionais. A abertura do projeto se deu com a apresentação do filme Simeão, o Boêmio, dirigido e interpretado por João Bênnio em 1969 na cidade de Pirenópolis; sendo exibido em seguida O Diabo Mora no Sangue, dirigido por Cécil Thiré e interpretado por João Bênnio e Ana Maria Magalhães, rodado na Ilha do Bananal, às margens do Rio Araguaia, em 1967. Em Goiânia, o projeto teve prosseguimento com a exibição de vários outros filmes em bares, restaurantes, feiras e exposições.

Troféu Candango
O esforço empreendido pelo Cineclube João Bênnio no sentido de divulgar a cinematografia goiana, nacional e estrangeira foi recompensado no XVIII Festival do Cinema Brasileiro de Brasília, realizado de 25 de setembro a 1° de outubro de 1985. O produtor, diretor e ator João Bênnio foi homenageado postumamente ao lado de Paulo Emílio Salles Gomes e de Glauber Rocha. A homenagem foi sugerida ao coordenador do festival, Marco Antônio Guimarães, pelo então presidente do Cineclube, Beto Leão, que recebeu das mãos da atriz Ana Maria Magalhães o Troféu Candango.

Os cineclubistas voltaram de Brasília superanimados e com mil idéias na cabeça, depois de participarem lá do I Encontro de Cineclubes do Centro-Oeste. Uma semana depois, o Cineclube João Bênnio deu prosseguimento ao Cinema Itinerante, com uma mostra de desenho animado realizada na I Feira da Criança, no Parque Agropecuário de Goiânia. Foram apresentados os filmes Até Tu Barão!, A Feiticeira da Baixada, Batuque, Faz Mal, Sorrir e Meow, este último vencedor do Festival de Cannes em 1982 na categoria de curta-metragem.

Em seguida, o CJB se uniu ao Grupo Experimental de Cinematografia e Artes (Grécia), fundado por Divino José da Conceição. As duas entidades passaram então a promover cursos para a formação de grupos de estudos e pesquisas, englobando as áreas de cinema, televisão, vídeo, teatro e fotografia. O resultado desses cursos foram a produção de vários filmes curtos em Super-8 em 16 mm e vídeos.

Em 1986, o CJB fez a co-produção do filme O Pescador de Cinema, de Ângelo Lima, cujo roteiro fora aprovado pela Embrafilme. O filme teve sua fase de finalização interrompida com a extinção da empresa estatal durante o governo Collor, tendo sido finalizado somente em 1999, graças a um convênio entre a ABD-GO e a Fundação Cultural Pedro Ludovico Teixeira.

Em dezembro de 1989, o CJB promoveu no Cine Cultura a mostra 100 Anos da República no Cinema. Na ocasião foram exibidos os filmes A Revolução de 30, de Sílvio Back; Pra Frente Brasil, de Roberto Farias, e O Homem da Capa Preta, de Sérgio Rezende.

Em 1991, o CJB realizou no Shopping Bougainville a mostra Glauber Rocha – O Gênio da Raça. As principais obras do cineasta foram exibidas durante uma semana, com sessões lotadas todos os dias. Em 1992, o CJB produziu o documentário Goiânia – Do Batismo à Modernidade, dirigido por Beto Leão e Eduardo Benfica, diretores da entidade. O documentário, realizado com intuito de despertar nas novas gerações o sentimento de preservação do patrimônio histórico, cultural e ecológico de Goiânia, teve sua estréia no dia 10 de julho de 1992, no auditório do Centro Cultural Marieta Telles Machado. O trabalho mostra os contrastes arquitetônicos entre as construções iniciais da capital, em estilo art déco, com as modernas e contemporâneas, enfatizando a destruição das casas antigas e a verticalização da cidade.

Em 1994, o CJB prestou uma homenagem póstuma ao cineasta italiano Federico Fellini, um ano após sua morte, promovendo em parceria com a ABD-GO a mostra ABDÉ Fellini. A mostra reuniu algumas das principais produções cinematográficas do diretor italiano, tendo sido exibidos os filmes Amacord, Cidade das Mulheres, Ginger e Fred e A Voz da Lua.

Em novembro de 1995 outro cineasta italiano foi homenageado por Cineclube João Bênnio: Píer Paolo Pasolini, falecido no dia 2 de novembro de 1975. Durante uma semana foi exibido o polêmico Saló, 120 Dias de Sodoma, no Cine Cultura, que ficou superlotado em todas as sessões.

Também em 1995, os diretores do CJB Eduardo Benfica e Beto Leão tiveram aprovado pelo Ministério da Cultura, através do Pronac (Programa Nacional de Apoio à Cultura), o projeto do livro Goiás no Século do Cinema. O livro faz um resgate da história do cinema goiano em suas diversas vertentes: do mercado de exibição à produção, passando pelo movimento cineclubista, associações representativas, publicações e depoimentos de pessoas ligadas à sétima arte em Goiás.

Em 1999, quando foram completados 15 anos do falecimento do cineasta João Bênnio, o CJB rendeu uma justa homenagem ao seu patrono. O pioneiro do cinema goiano foi lembrando com o lançamento do livro Bênnio – Da Cozinha para a Sala Escura, de autoria de Beto Leão, e da estréia do filme O Pescador de Cinema, dirigido por Ângelo Lima e co-produzido pelo CJB e a Embrafilme, além de exposição de fotografias e as exibições de Simeão, o Boêmio, de João Bênnio, e do documentário Bênnio – O Inesquecível Alquimista das Artes, de Eudaldo Guimarães e Beto Leão. No mesmo dia, a TV Brasil Central exibiu um especial sobre o cineasta, que incluiu o vídeo O Inesquecível Alquimista das Artes e o longa-metragem O Diabo Mora no Sangue.

No ano 2000, o documentário em 35mm O Pescador de Cinema e o livro Bênnio – Da Cozinha para a Sala Escura fizeram parte da programação do 10° Festival Internacional de Curta-Metragem de São Paulo, ocorrido de 19 a 28 de agosto. O livro ficou em exposição no Espaço Unibanco, na rua Augusta, e o filme foi exibido no Museu da Imagem e do Som de São Paulo, na Estação Vitrine e no Centro Cultural São Paulo.

No mesmo ano as duas obras estiveram presentes na XXVII Jornada Internacional de Cinema da Bahia, realizada de 12 a 18 de setembro. Em Goiás, no mesmo ano, o filme e o livro foram lançados no FICA – Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental.

Em 2003, o Cineclube João Bênnio e a Filmoteca José Petrillo prestaram uma justa homenagem póstuma ao cineasta JOSÉ PETRILLO, falecido no dia 21 de agosto de 2000. A referida homenagem consistiu na exibição de alguns dos principais filmes desse cineasta mineiro de Ouro Preto, mas que adotou Goiânia como sua cidade, tendo sido aqui um dos produtores artísticos mais conceituados do Brasil, autor de obras valiosas e premiadas nacionalmente. No dia 23 de agosto foram exibidos, no auditório da Câmara Municipal de Goiânia, os filmes Cavalhadas de Pirenópolis, vencedor do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro em 1978; Areia, Cajazinho e Alfenin e A Primitiva Arte de Tecer, prêmio de aquisição do Museu Nacional de Belas Artes, em 1986.

João Bennio foi, é e sempre será uma eterna presença inquieta e inquietadora no cenário cultural de Goiás. O cineasta nunca se conformou com a mesmice da política e da cultura nessas terras de Anhanguera, nem com a insistência dos vidiotas de plantão em nivelar por baixo o debate sobre a importância cultural do nosso Estado ou mesmo de considerar a real possibilidade de se fazer cultura de qualidade abaixo do Rio Paranaíba. Bennio, desde que veio apresentar nos salões do antigo Jóquei Clube de Goiás o monólogo “As mãos de Eurídice”, de Pedro Bloch, nos idos da década de 1950, viveu seus 29 anos em Goiás lutando para combater a burrice intelectual (e bem remunerada) que sempre imperou nas instituições, nas universidades, no seio da nossa dita inteligência.

É por essas e outras, que vira e mexe, o Cineclube João Bennio (CJB), criado no dia da sua morte em 18 de junho de 1984, procura manter viva a sua memória cultural. Assim, o CJB, em parceria com a Secretaria Municipal de Cultura, promoveu no dia 12 de agosto de 2004, no Cete (Centro de Tecnologia do Espetáculo, que fica em frente ao antigo Teatro Inacabado, ao lado do Lago das Rosas), uma mostra em homenagem ao cineasta e teatrólogo João Bennio, que se vivo estivesse completaria 77 anos no dia 11 de abril. Bennio nasceu em Mutum (MG), morou e desenvolveu diversas atividades artísticas em Goiânia de 1955 a 1984.

Na oportunidade, foram exibidos os documentários: O Inesquecível Alquimista das Artes, dirigido por Beto Leão e Eudaldo Guimarães; O Pescador de Cinema, de Ângelo Lima; Bennio na Intimidade de sua Chácara, de Antônio Eustáquio (Taquinho), e Bennio no Frutos da Terra, de Hamilton Carneiro. Em seguida houve uma noite de autógrafos do livro Bennio – Da Cozinha para a Sala Escura, do jornalista e pesquisador de cinema Beto Leão, e um bate-papo com amigos e admiradores de João Bennio, entre eles o arquiteto Maurício Marques de Faria, atual proprietário da chácara onde funcionava o Restaurante João Bennio, no Jardim Novo Mundo; o advogado Coriolano Soares e sua filha Renata (que mora em Londres e não conhecia a obra do cineasta), e William Santana, ator que interpreta João Bennio no documentário-ficção O Pescador de Cinema. Estiveram presentes também diversos membros da ABD-GO (Associação Brasileira de Documentaristas, Seção de Goiás), da Associação Goiana de Cine-vídeo e também de cineclubes goianos.

Esta mostra fez parte da ampla programação que o CJB realizou naquele ano em homenagem ao seu patrono, em comemoração aos 20 anos de existência da entidade e do 20° aniversário da morte de João Bennio. A homenagem culminou na exibição, em junho, dos quatro longas-metragens em 35 mm realizados por João Bennio (“O Diabo Mora no Sangue”, “Simeão - O Boêmio”, “Tempo de Violência” e “O Azarento – Um Homem de Sorte”), além dos filmes em que participou como ator, entre eles “O Leão do Norte” e “A Mulher que Comeu o Amante”, ambos dirigidos por Carlos Del Pino. Como ficou acertado entre os amigos presentes na noite do dia 12, foi organizada também uma grande feijoada, na antiga chácara de Bennio, para rememorar as receitas do mestre-cuca.

LEGADO INESTIMÁVEL

Ao longo de quase três décadas, João Bennio deixou impressa, nas páginas da história artístico-cultural de Goiás, a sua passagem pelo cinema, teatro, televisão, rádio e jornalismo, tendo sido cronista do Diário da Manhã por muito tempo. O meu primeiro contato com João Bennio foi feito quando eu ainda era estudante de Jornalismo, na Universidade Federal de Goiás e começara a escreve sobre cinema no Diário da Manhã.

Na época, início dos anos 1980, eu já vinha de um convívio estudantil com o cineclubismo no Diretório Central dos Estudantes e tinha pretensões de fazer cinema em Goiás. Esse sonho despertou-me o interesse de conhecer um pouco mais sobre aquele colega do DM, que, uma vez por semana, adentrava a redação com suas crônicas embaixo do braço, fazendo muita festa e cumprimentando a todos, com seu jeito sempre alegre e falante, e uma calvície indisfarçável coberta por um boné, o corpo já debilitado – sinais do mal inexorável que o consumia já há algum e que não demoraria a tira-lo do nosso convívio.

Bennio foi um lutador incansável, que desafiou todos os obstáculos para enfrentar as barreiras econômicas e culturais predominantes em Goiás, onde o preconceito contra os artistas ainda impera até hoje, e que escreveu um capítulo importantíssimo na curta história das produções cinematográficas goianas. Ele provou – nos difíceis anos de chumbo da ditadura militar, da qual também foi uma vítima –, ser possível trabalhar com cinema e cultura onde a Agri-cultura está sempre em primeiro plano.

Com efeito, os filmes produzidos e dirigidos por Bennio merecem um estudo mais aprofundado do ponto de vista estético, das suas estruturas narrativas, mas uma coisa é certa: se não conseguiu o êxito comercial, e mesmo de crítica, desejados, o cineasta legou o testemunho de sua obra e, principalmente, sua imensurável força de vontade para a criação de um pólo cinematográfico em Goiás. Tudo isso, a despeito da visão míope e o desleixo das autoridades constituídas em relação Às coisas da cultura na província de Anhanguera. Ficou, porém, o registro de um ser humano talentoso e criativo, que não mediu esforços para colocar Goiás no caminho da fantasia, da alegria, da dialética da vida, através da sétima arte.

Em 2005, no mês de novembro, o CBJ prestou homenagem ao cineasta Píer Paolo Pasolini, através da Mostra 30 Anos Sem Pasolini. A programação esteve bastante diversificada: às 14h acontece a Abertura do FASAM Cultural, com a apresentação do artista plástico Rogério Duarte Ungarelli e de sua obra, cujo tema nessa mostra é a PAZ. As 14h e 10 min haverá a apresentação de alunos do Núcleo de Música do Colégio FASAM, sob a orientação da professora Mirelli Croce cujo tema das músicas selecionadas é a PAZ, entre as quais “Rosa de Hiroshima”, de Ney Matogrosso; “A Paz”, de Gilberto Gil; “O que é o que é”, de Gonzaguinha; “Aquarela”, de Toquinho; “Te ofereço”, do Grupo Gan. Na seqüência, às 14h e 35min, teve início a exibição dos filmes. Primeiro foi feita a pré-estréia do curta-metragem “Cristo Corra!”, de Ângelo Lima, uma homenagem a Pasolini, seguido de “Accatone – Desajuste Social”, de Pier Paolo Pasolini. Logo após houve um debate com o público. Os debatedores são Sandro de Oliveira, jornalista, professor e mestre em cinema - PUC SP; Beto Leão, Jornalista e documentarista e Ângelo Lima, documentarista.

BETO LEÃO é jornalista, pesquisador de cinema e presidente do CJB




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