Nós, cineastas de América Latina, reunidos na cidade do Río de Janeiro por ocasião da realização do XV Festival Ibero-americano de Cinema e Video - Cinesul, autoconvocados no seu marco, entre os dias 24 e 28 de junho de 2008 no I Seminário e Fórum do Documentário Latino-americano, patrocinado pela Secretaria do Audiovisual do Ministério de Cultura, com o intuito de refletir, debater e fazer um balanço sobre os mais importantes aspectos do cinema documentário de nossa Região, na perspectiva histórica, tendo presente que foi através da ampla difusão e da pertinência cultural, social e política das mensagens transmitidas por nossos filmes, o documentário acompanhou decisivamente o auge libertário que percorreu nossa América Latina na década dos anos sessenta –patente nos encontros de Viña del Mar de 1967, e de Mérida de 1968- , traduzido em amplas lutas por alcançar a toma de consciência de nossa identidade cultural latino-americana, a necessidade impostergável de nossa mais ampla integração, e finalmente o alcance de nossa segunda e definitiva independência nacional e continental; tendo em conta que depois de se produzir situações adversas para as forças e as idéias progressistas na América Latina, acompanhadas por uma ação cada vez mais alienante dos agentes coloniais e imperiais de sempre, o movimento popular remeteu sensivelmente, e como demonstrando a profunda pertinência com nossas mais sensíveis realidades, também o cinema documentário latino-americano viu diminuída sua presença.

Reafirmando mais uma vez a sentença de que os povos jamais são vencidos, passados alguns anos daquelas situações, e já a princípios do século XXI, um novo auge libertário percorre Nossa América, dialeticamente nutrido de novas experiências que nos permitem pensar agora perspectivas mais eficientes para nossas metas. Efetivamente, a América Latina experimenta um ressurgimento da esperança dos movimentos populares, a ponto de um número importante dos mesmos atualmente já serem governos. Da mesma forma, tem chegado o momento da refundação do Movimento Documentarista do Novo Cinema Latino-americano, que voltará a se constituir em testemunho e ativo participante das lutas de libertação que nossos povos levam a frente neste momento estelar da historia Latino-americana, para alcançar a definitiva independência e a efetiva integração de nossos países na Pátria Grande sonhada por nossos Libertadores.

Neste marco de considerações e circunstâncias, os cineastas reunidos neste I Fórum do Rio de Janeiro, temos reputado necessário e impostergável convocar o Encontro de Documentaristas Latino-americanos - Século XXI, que se realizará em Caracas entre os dias 21 e 25 de outubro deste ano, patrocinado pelo Centro Nacional de Cinematografia da República Bolivariana da Venezuela, para demarcar renovados espaços de organização, produção e difusão.

Os cineastas reunidos no Museu de Arte Moderna no marco do I Seminário e Fórum do Documentário Latino-americano elaboram esta Carta do Rio de Janeiro acordando e recomendando os seguintes pontos:

Continuidade dos esforços de unidade na América Latina para a produção, distribuição e exibição do documentário na região.

Retomar a idéia do Mercado Comum do documentário na América Latina.

Exortar a nossos governos para que conservem e fortaleçam políticas de fomento de produção e circulação de documentários como a melhor forma de preservar a memória social e histórica de nossos povos e provocar a integração dos mesmos.

Aconselhar aos governos a isenção do pagamento de taxas aduaneiras e eliminar os obstáculos para se conseguir a livre circulação de documentários entre os países da Região.

Harmonizar as legislações cinematográficas do nosso continente.

Exortar aos companheiros documentaristas da América Latina a aderirem e participarem do Encontro em Caracas.

Incitar às televisões públicas da América Latina à exibição de nossa produção documentária.

Exigir das secretarias de cultura, cinematecas, cine clubes e outros organismos e organizações a aquisição e exibição dos documentários latino-americanos.

Preservação dos arquivos, redes e intercambio de informações do acervo documental dos mesmos.

Criar o link do documentário no portal da Fundação do Novo Cinema Latino-americano.

Criar o Festival do Documentário Latino-americano dos jovens realizadores.

Fomento aos Festivais dedicados ao cinema documentário.

A Carta do Rio de Janeiro afirma a importância à diversidade cultural do continente latino-americano e clama pela inclusão de nosso cinema independente como importante instrumento de integração entre nossos povos.

O cinema latino-americano realizará seu objetivo maior quando se afirmar como expressão das histórias, das culturas, estéticas e imaginários dos povos que habitam nosso continente.

Terminamos defendendo uma mesma e coletiva idéia: o direito dos povos a suas próprias imagens, à reciprocidade e à universalização destas imagens.

Rio de Janeiro, 28 de junho de 2008